Homem-Aranha 2 (2004) | Crítica

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Sequências são sempre um assunto delicado falando de Hollywood, em especial de bons filmes. Afinal, como superar o que já foi feito? Porém, quando uma sequência supera a original… exemplos não faltam. E, certamente, Homem-Aranha 2 é um deles. Trazendo Sam Raimi de volta como diretor e o elenco principal para um enredo já fora do colégio, aqui vemos Peter Parker na faculdade.

A escolha do vilão também foi peculiar ao público geral, claro; no filme, teríamos Doutor Octopus, aqui interpretado por Alfred Molina. 17 anos depois, sabemos que o mesmo voltará em “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa”, podendo notar o entusiasmo e prestígio que a versão de 2004 do vilão teve. E isso nos leva para outra questão: como Homem-Aranha 2 envelheceu? 17 anos depois de seu lançamento, o Drop Cultura traz a crítica de um dos mais geniais filmes baseado em histórias em quadrinhos.

Vale lembrar que o material abaixo contém spoilers dos acontecimentos do filme, portanto leia por sua conta e risco (que já não deveria existir considerando a idade do filme e o quão clássico ele é falando do cinema baseado em quadrinhos, mas enfim).

Em Homem-Aranha 2, o brilho é menos do herói e mais do homem por trás da máscara

O que mais me atrai em Homem-Aranha 2 é sua narrativa, sua compaixão com Peter Parker. Em menos de 10 minutos corridos, o longa já enfatiza como a vida de Parker vem sendo um completo desastre desde que se formou. Quebrado financeiramente, exausto fisicamente e solitário psicologicamente, o fotógrafo claramente não consegue conciliar sua vida pessoal com seu alter ego. É um grande dilema, embora ele tente. Deus, se tem algo que esse filme tenta provar é como ele tenta.

Vale destacar também os momentos de alívio cômico. Ainda melhor que o primeiro, as sequências com J. Jonah Jameson dão um show, além do personagem original Ditkovich, que sempre que está presente na tela rende boas risadas.

E claro, chegamos em uma garota, a mesma do último filme: Mary Jane Watson. Embora a gente saiba que o desfecho da relação entre Watson e Parker foi conturbado no primeiro filme, a situação parece se agravar no segundo. Aqui, quando Peter encontra MJ, ele relembra o quanto a ama, algo que Sam Raimi enfatiza algumas vezes ao longo do filme, aliás. No entanto, conforme o desfecho do primeiro filme, Peter dá passos cada vez mais calculados em como avançar com essa relação, embora atitudes como tentar ir na peça da amiga demonstrem interesse, não necessariamente amoroso.

Além do lado misterioso para Watson, a interrupção repentina apresentada por Parker (e, vale lembrar, sem explicação para Mary Jane) representa não só uma falta de comprometimento (seja como potencial companheiro ou como amigo), mas uma falta de abertura do mesmo. Embora Parker esteja disposto a se abrir, ele não consegue. Tudo isso ainda é piorado por um potencial relacionamento entre Watson e o coronel John Jameson, que propõe casamento (em um contexto onde Parker precisa se sujeitar a registrar o momento, conforme solicitado por J. Jonah Jameson). Tudo isso culmina na ascensão da queda do Homem-Aranha, com Peter Parker perdendo seus poderes de forma gradual.

E funciona perfeitamente; afinal, todo esse stress faz com que Parker questione seu próprio alter ego, o que lhe faz perder seus poderes. adaptando a história “Homem-Aranha Nunca Mais” de uma maneira tão bem inserida que chega a dar inveja por parte de outras adaptações de histórias em quadrinhos para as telonas.

Algumas cenas, como a que Parker reflete em seu quarto, ou a cena onde ele consulta um médico, ou até a tocante cena com o Tio Ben onde ele decreta o fim do Homem-Aranha. Acho que também podemos falar da subtrama envolvendo Harry Osborn. Com um ódio acumulado desde o primeiro filme, vemos um Harry que tenta seguir em frente com as Indústrias Oscorp, agora financiando Otto Octavius, mais tarde Doutor Octopus. Esse aspecto de Osborn é inclusive mais um dos problemas que Parker enfrenta, o fardo de ter um de seus lados mais humanos odiado por seu melhor amigo.

“O poder do sol na palma da minha mão”

Em outras adaptações, o Doutor Octopus nunca foi necessariamente o meu vilão favorito do Homem-Aranha, aquele que eu achava o mais sensacional. Todavia, o Octopus de Alfred Molina é talvez um dos supervilões mais brilhantes que o cinema teve a oportunidade de ver. Antes da tirania, de ser errado, era uma pessoa bem intencionada. Era como qualquer homem de meia idade do meio científico que você imagina, que gostaria de usar a ciência pelo bem.

Mas, em uma cena de transformação bem típica dos filmes do Sam Raimi, o homem dá lugar ao corpo controlado pelos tentáculos, tudo por uma falha de cálculo (que é convenientemente prevista por Parker, um jovem adulto de 20 anos). Com o nascimento de Doutor Octopus, o projeto de fusão nuclear retorna, agora em uma estrutura precária.

Voltando ao herói, o surgimento de Octopus ocorre antes da desistência de Parker. Mas quando ele desiste, além daquela sequência ao som de “Raindrops Keep Falling on my Head”, ele finalmente se vê livre de um peso. O peso de não poder estar em qualquer lugar, o peso de não poder cumprir com sua própria responsabilidade. Tudo fica repentinamente mais fácil, inclusive no amor. Mas se tudo fica mais fácil, tem seu preço. Parker encara seu maior peso após a morte de Ben Parker, revelando tudo que ocorreu naquela noite para sua tia.

Voltando ao lado amoroso, ele deixa claro para Mary Jane como mudou recentemente (ou como o próprio diz, “eu sangro se bater em mim”). Mas, com grandes poderes, vem grandes responsabilidades, o que faz com que Octopus sequestre Mary Jane para atrair novamente o Homem-Aranha (a mando de Osborn). Retomando seus poderes aos poucos, Parker já estava decidido sobre retornar com seu alter ego mascarado antes do encontro que culminou no sequestro de Watson, após o brilhante discurso de sua Tia May em uma conversa após a chocante revelação envolvendo a noite da morte de Ben Parker. E aqui já podemos falar das cenas de ação, né?

Além da cena de transição entre o herói se balançando nos prédios nova-iorquinos até o óculos de Octopus, a sequência do trem é tão bem feita que até hoje é celebrada e referenciada nas mais diversas obras onde o personagem se faz presente, um verdadeiro marco da cultura pop. Quando o cansaço vence Aranha, é ali que percebemos o quanto aquelas pessoas precisam de um herói, o quanto elas amam o que tal sacrifício representa. Embora o desfecho não seja dos mais felizes, é uma cena tocante.

O que impressiona, no entanto, é o confronto final. Repleto de boas frases de efeito e cenas de ação, tudo culmina em Peter revelando sua identidade para Octavius, falando sobre quando é necessário desistir dos próprios sonhos para fazer o que é certo. Nesse momento, sobressaindo o controle dos tentáculos, Octavius realiza um sacrifício para lá de simbólico, no mesmo momento onde Mary Jane enfim descobre a verdade sobre Peter Parker e sua identidade alternativa.

Ali, tudo culmina em um momento muito especial para ambos, um ponto alto da trilogia. Encerrando, enfim, a sequência final envolve a desistência do casamento por parte de Mary Jane, com a mesma indo atrás de Parker iniciando enfim o relacionamento dos dois. Com um vindouro beijo, o herói entra em cena e em uma linda sequência do herói se balançando pela cidade, Homem-Aranha 2 termina.

O que será aproveitado em “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa”?

Como sabemos, Alfred Molina retorna como Doutor Octopus em “Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa”. Segundo o próprio ator em entrevista (relatada aqui anteriormente), a inserção do vilão parte do fim de Homem-Aranha 2, na cena do embate final (provavelmente no momento do sacrifício). Rejuvenescido digitalmente, podemos ver no trailer que o ator de fato está de acordo com a versão do filme de 2004. Resta saber como a adaptação ocorrerá, além da iminente preocupação de como o arco de sacríficio do vilão será tratado sem que tenha sido em vão.

Conclusão: Homem-Aranha 2 é um filme humano. Tratando mais de Peter Parker, ele nos relembra o porquê o herói da Marvel Comics é tão amado. Apresentando um vilão cativante, um exímio desenvolvimento e motivação de sobra acerca dos problemas e crises de identidade de Peter Parker/Homem-Aranha. Além das cenas de ação (que envelheceram muitíssimo bem), o lado dramático do longa brilha, de um jeito que não foi repetido em filmes de super-herói desde então.

Nota: 10/10

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